Você decidiu que quer aprender a desenhar.
Comprou um caderno, separou alguns lápis, talvez até tenha instalado um programa de desenho no computador ou no tablet. Aí vem a pergunta que parece simples, mas pode deixar qualquer iniciante meio perdido:
“Por onde eu começo?”
Anatomia? Perspectiva? Luz e sombra? Anatomia de novo porque todo mundo fala dela? Ou pior, nem sequer pensou nessas questões?
E quando você começa a pesquisar, encontra milhares de vídeos, cursos, livros e tutoriais. Cada pessoa parece ensinar uma coisa diferente e, depois de algum tempo, aquela vontade inicial de desenhar pode acabar dando lugar à sensação de que aprender arte é complicado demais.
Mas existe uma maneira mais tranquila de organizar esse caminho.
Resolvi escrever esse texto por que estou em um processo de fortalecer o hábito de desenhar com mais frequência e já passei por todas essas dúvidas que eu citei. Então relaxa, você não precisa aprender tudo de uma vez. O mais importante é entender quais fundamentos estudar primeiro e como eles se relacionam.
Neste artigo, vamos montar juntos um possível caminho para quem está começando a estudar desenho.
Antes de tudo: você não precisa ter “dom”
Vamos começar por uma ideia que costuma atrapalhar muita gente antes mesmo do primeiro desenho: “Eu não tenho talento para desenhar.”
Essa frase aparece com frequência entre iniciantes. E ela é perigosa porque transforma uma dificuldade normal do aprendizado em uma suposta falta de capacidade. Desenhar é uma habilidade que pode ser desenvolvida.
É claro que cada pessoa possui experiências, interesses, repertórios e facilidades diferentes. Mas observar, compreender formas, controlar o traço, perceber proporções, trabalhar valores e organizar uma composição são habilidades que podem ser estudadas e praticadas. Por isso, não espere descobrir se você “tem talento” para começar. Comece para descobrir o que você é capaz de aprender.
Se esse assunto interessa a você, vale também conferir nosso conteúdo sobre os mitos do talento no desenho, especialmente a ideia de que somente algumas pessoas nasceram para desenhar.
Então, o que estudar primeiro?
Não existe uma única ordem obrigatória para aprender desenho. Afinal, alguém interessado em quadrinhos pode seguir um caminho um pouco diferente de quem deseja trabalhar com desenho acadêmico, ilustração ou pintura.
Mas alguns fundamentos aparecem praticamente em todos esses caminhos e uma sequência bastante útil para quem está começando é:
1. Observação
2. Forma
3. Proporção
4. Luz e sombra
5. Perspectiva
6. Composição
7. Linguagem e estilo
Vamos entender cada etapa.
1. Aprenda a observar antes de tentar desenhar
Pode parecer estranho, mas uma das primeiras habilidades que um desenhista precisa desenvolver não está exatamente na mão. Está nos olhos. Quando olhamos para uma cadeira, por exemplo, normalmente pensamos: “É uma cadeira.”
O desenhista precisa começar a perceber quais são suas formas básicas, qual é sua proporção, onde estão seus ângulos, como as partes se relacionam, onde existe luz, onde existe sombra e como ela ocupa o espaço. Isso muda completamente a maneira de desenhar.
Um bom exercício para começar é escolher objetos simples da sua casa e observá-los durante alguns minutos antes de colocar o lápis no papel. Não tente desenhar imediatamente.

Olhe, compare, analise e depois desenhe. Esse exercício parece pequeno, mas ajuda a desenvolver uma habilidade fundamental: aprender a enxergar visualmente.
2. Comece pelas formas básicas
Depois de aprender a observar, vem uma pergunta importante: Como transformar aquilo que vejo em desenho?
- Uma maneira bastante eficiente é procurar formas simples.
- Uma caneca pode ser pensada a partir de cilindros.
- Uma caixa pode ser construída com blocos.
- Uma bola pode ser representada por uma esfera.
- Um personagem pode começar com círculos, cilindros, caixas e outras formas geométricas.
Isso não significa transformar todo desenho em um exercício de geometria. A ideia é aprender a simplificar aquilo que você observa. Quando você entende as formas básicas, fica muito mais fácil construir objetos complexos.
Em vez de pensar: “Preciso desenhar uma mão.” Você pode começar pensando: “Quais volumes estão formando essa mão?” Essa mudança de pensamento é muito importante para quem está aprendendo.
3. Estude proporção
Agora chegamos a uma das partes que mais costumam causar frustração. Você olha para seu desenho e pensa: “Tem alguma coisa errada, mas eu não sei exatamente o quê.”
Muitas vezes, o problema está na proporção. Proporção é, de maneira simplificada, a relação entre os tamanhos das diferentes partes de uma imagem. Uma cabeça pode estar grande demais em relação ao corpo, uma janela pode estar pequena demais em relação à parede, uma perna pode ter ficado curta em comparação com o restante da figura.

E existe um detalhe interessante: quanto melhor você aprende a observar proporções, mais facilmente percebe esses problemas. Por isso, não tenha pressa de chegar aos desenhos complexos. Desenhar objetos simples e figuras básicas pode parecer pouco emocionante no começo, mas é justamente esse tipo de exercício que constrói uma base sólida.
4. Depois, comece a entender luz e sombra
Quando conseguimos representar forma e proporção, podemos começar a pensar em volume. E uma das principais ferramentas para criar essa sensação de volume é a relação entre luz e sombra.
Pegue uma esfera. Se você desenhar apenas um círculo, teremos a representação bidimensional de uma forma. Mas, quando trabalhamos luz, sombra, meio-tom e sombra projetada, aquele círculo começa a adquirir sensação de volume.
Isso acontece porque nosso cérebro interpreta essas diferenças de valor como informações sobre a forma.
Você pode começar com exercícios extremamente simples:
- uma esfera;
- um cubo;
- um cilindro;
- uma maçã;
- uma garrafa;
- uma caixa.

Não precisa começar fazendo um retrato hiper-realista. Uma maçã bem observada pode ensinar mais sobre luz do que uma ilustração complicada feita sem entender o que está acontecendo.
5. Perspectiva: o espaço também precisa ser estudado
Agora podemos falar de um assunto que costuma assustar os iniciantes: perspectiva. A palavra parece saída de um livro enorme de desenho técnico, mas a ideia fundamental é bastante simples. A perspectiva nos ajuda a representar objetos e espaços tridimensionais em uma superfície bidimensional.
Ela explica, por exemplo, por que objetos parecem menores à medida que se afastam. Explica que linhas paralelas podem parecer convergir ou uma estrada parece ficar mais estreita ao longe. Ao entender essas possibilidades podemos representar ambientes com sensação de profundidade.

Você não precisa dominar todas as variantes da perspectiva logo no início. Comece entendendo conceitos básicos como a linha do horizonte, ponto de fuga, perspectiva de um ponto e perspectiva de dois pontos. Depois, pratique desenhando caixas, corredores, mesas, prédios e ambientes simples. Mais uma vez, a lógica é construir conhecimento por etapas.
6. Aprenda composição
Até aqui falamos bastante sobre construir aquilo que está dentro do desenho. Agora precisamos pensar em uma questão diferente: Como organizar tudo isso dentro da imagem?
É aí que entra a composição. Imagine que você tenha vários elementos interessantes para colocar em uma ilustração. Isso não significa que basta jogar todos eles dentro do quadro. Você precisa pensar:
- onde está o ponto principal de atenção;
- como os elementos estão distribuídos;
- quais áreas possuem maior contraste;
- como o olhar percorre a imagem;
- quais elementos são mais importantes;
- como o espaço vazio participa da composição.

Composição é uma das áreas em que desenho, pintura, ilustração, fotografia, design e histórias em quadrinhos começam a conversar diretamente e talvez seja justamente por isso que estudar arte seja tão interessante. Os conhecimentos não ficam isolados em pequenas caixas. Eles começam a se conectar.
7. E o estilo? Deixo para depois?
Essa é uma pergunta muito comum. “Quando vou descobrir meu estilo?” Minha sugestão para quem está começando é: não transforme a busca pelo estilo em uma obrigação. Seu estilo provavelmente será construído aos poucos, a partir das coisas que você observa, pratica, gosta, pesquisa e experimenta.
Você pode estudar outros artistas, pode desenhar realismo, pode experimentar cartum, pode trabalhar com quadrinhos, pode testar pintura, pode fazer desenhos mais soltos ou mais detalhados. Tudo isso faz parte da construção do repertório. O estilo não precisa ser uma máscara que você escolhe no primeiro dia. Ele pode ser uma consequência do caminho.
E quanto tempo devo estudar por dia?
Aqui existe uma armadilha comum. Muita gente pensa que precisa passar três ou quatro horas desenhando diariamente para evoluir, mas nem sempre. Regularidade costuma ser mais importante do que sessões gigantescas de estudo. Se você consegue reservar 20 ou 30 minutos algumas vezes por semana, já pode começar.
Vou dar uma dica que adotei pra mim e que tem funcionado bem. Crie uma rotina simples poderia ser:
- Segunda-feira: observação e formas básicas
- Quarta-feira: proporção e construção
- Sexta-feira: luz e sombra
- Fim de semana: desenho livre ou estudo de referência

Depois você pode aumentar o tempo conforme sua disponibilidade. O importante é criar uma relação sustentável com a prática. Mas lembre-se do que eu disse, a regularidade é mais importante que uma seção longa. Poucos minutos mais vezes por semana vão te fazer evoluir muito mais. Desenho é prática. Se você realmente quer que isso faça parte de sua vida e lhe traga benefícios deve se organizar e dedicar-se. Afinal, estudar arte não deve parecer algo trabalhoso e sim aquilo que lhe dá prazer. Deve ser algo que você aguarda ansiosamente para fazer.
E se eu quiser desenhar personagens ou histórias em quadrinhos?
Nesse caso, os fundamentos continuam sendo importantes. Mesmo quando o objetivo final é criar personagens, ilustrações ou quadrinhos, conhecimentos de forma, proporção, perspectiva, composição e luz ajudam diretamente.
E existe uma camada adicional que é a linguagem visual. No desenho de personagens, por exemplo, você pode começar a estudar:
- expressão facial;
- linguagem corporal;
- silhueta;
- exagero;
- personalidade visual;
- construção de poses;
- relação entre personagem e cenário.
Já nas histórias em quadrinhos, entram outras questões:
- enquadramento;
- sequência;
- ritmo;
- balões;
- narrativa visual;
- relação entre texto e imagem.

Ou seja, depois dos fundamentos, você pode começar a direcionar seus estudos para a área artística que mais interessa a você. É nesse momento que o aprendizado começa a ganhar uma cara mais pessoal.
Um possível caminho para os seus primeiros estudos
Bom, já que chegamos até aqui e esse texto se estendeu, acabou deixando de ser apenas mais um conteúdo sobre como começar a desenhar. Vamos traçar um caminho prático, pois isso aqui já está tornando-se um mini guia do desenhista iniciante. Se você está completamente perdido e quer apenas uma orientação inicial, experimente esta sequência:

E lembre-se: essa sequência não é uma prisão. Você pode voltar, avançar, experimentar e estudar assuntos diferentes. Aprender arte não é subir uma escada perfeitamente reta. É mais parecido com construir uma rede de conhecimentos, em que cada novo aprendizado começa a conversar com os anteriores.
O mais importante é começar
Isso mesmo, se a gente não começar não vamos a lugar algum, então não espere nem mais um minuto. Comece. Tenho certeza que você tem um papel, lápis ou caneta por aí. Então faça! Talvez você esteja esperando comprar o material certo, talvez esteja esperando aprender alguma técnica antes de começar ou talvez esteja esperando descobrir se realmente leva jeito para isso.
Como eu disse, não espere tanto. Pegue um lápis uma folha, escolha um objeto, observe e desenhe. Erre e tente novamente. Agora guarde os desenhos e daqui a alguns meses, volte para eles. Você provavelmente vai perceber coisas que hoje ainda não consegue enxergar. E essa talvez seja uma das partes mais interessantes de aprender arte: perceber que aquilo que parecia impossível começa, aos poucos, a fazer sentido.
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Uma última coisa
Não existe um momento mágico em que alguém finalmente recebe autorização para se chamar de artista. Existe o momento em que você começa a praticar.
Talvez seja hoje. Agora é só pegar o lápis.

